segunda-feira, novembro 05, 2007

Dom Quixote


Foi com tristeza que soube que tinhas terminado a tua passagem pela blogosfera.
Confesso que fico triste...
Para mim, era uma forma de , de alguma maneira, me sentir mais proxima de ti.
Mas respeito a tua decisão.
Vendo os teus posts antigos vi um que penso identificar-te.
Deixo-o aqui, no meu blog, como uma especie de homenagem e despedida.
À tua pergunta de sempre "Voamos?", respondo-te eu agora: usa sempre as tuas asas e voa....
Adeus, Dom Quixote.....



Vês passar o barco
rumando p’ró o sul
Brincando na proa
gostavas de estar


Voa lá no alto
por cima de ti
um grande falcão
és o rei és feliz

E quando tu
vês o Mississipi
tu saltas pela ponte
e voas com a mente


Corre agora corre
e te esconderás
entre aquelas plantas
ou te molharás

E sonharás
que és um pirata
tu sobre uma fragata
e sempre à frente de um bom grupo
de raparigas e rapazes

Tu andas sempre descalço, Tom Sawyer
junto ao rio a passear, Tom Sawyer
mil amigos deixarás, aqui, além
descobrir o mundo, viver aventuras

domingo, novembro 04, 2007

"A Vida é o Dia de Hoje!!!"



"A vida é o dia de hoje,

A vida é ai que mal soa,

A vida é sombra que foge,

A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve

Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvai:

A vida dura um momento,

Mais leve que o pensamento,

A vida leva-a o vento,

A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,

A vida é sopro suave,

A vida é estrela cadente,

Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,

Onda que o vento nos mares,

Uma após outra lançou,

A vida - pena caída

Da asa da ave ferida

De vale em vale impelida

A vida o vento levou!"

(João de Deus)

terça-feira, outubro 23, 2007

quinta-feira, outubro 18, 2007

Encosta-te a mim - Jorge Palma


Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar.

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Stairway to heaven


There's a lady who's sure
All that glitters is gold
And she's buyng a stairway to heaven.
And when she gets there she knows
If the store are closed.
With a word she can get what she came for.

There's a sign on the wall
But she wants to be sure.
Cause you know sometimes words have two meanings.
In a tree by the brook there's a songbird who sinngs
Sometimes all of our thoughts are misgiven.

There's a feeling i get
When i look to the west
And my spirit is crying for leaving.
In my thoughts i have seen
Rings of smoke through the trees
And the voices of those who stand looking.

And it's whispered that soon
If we all call the tune
Then the piper will lead us to reason.
And a new day will dawn
For those who stand long.
And the forest will echo and laughter

And it makes me wonder...

If there's a bustle in your hedgerow
Don't be alarmed now.
It's just a spring clean for the May-Queen.
Yes there are two paths you can go by
But in the long run.
There's still time to change the road you're on.

You head is humming and it won't go in case you don't know.
The piper's calling you to join him.
Dear Lady can you hear the wind blow and did you know
Your stairway Lies on the ehispering wind.

And as we wind on down the road.
Our shadows taller than our soul.
There walks a lady we all know.
Who shines white light and wants to show.
How everything still turns to gold.
And if it listen very hard
The tune will come to you at last.
When all are one and one is all.
To be the rock and not the roll.

Led Zeppelin - 1971

sexta-feira, julho 27, 2007



"Livro do meu amor, do teu amor,

Livro do nosso amor, do nosso peito...

Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,

Como se fossem pétalas de flor.


Olha que eu outro já não sei compor

Mais santamente triste, mais perfeito

Não esfolhes os lírios com que é feito

Que outros não tenho em meu jardim de dor!


Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!

Num sorriso tu dizes e digo eu:

Versos só nossos mas que lindo sois!


Ah! Meu amor! Mas quanta, quanta gente

Dirá, fechando o livro docemente:

"Versos só nossos, só de nós dois!..." "


Florbela Espanca

Agarra-me esta noite



Onde veres, eu estou

Onde tu fores, eu vou

Se tu quiseres assim

Meu corpo é o teu mundo

E um beijo um segundo

És parte de mim


Para onde olhares, eu corro

Se me faltares, eu morro

Quando vieres, distante

Soltam-se amarras

E tocam guitarras

Por ti, como dantes


Agarra-me esta noite

Sente o tempo que eu perdi (mmmmm)

Agarra-me esta noite

Que amanhã não estou aqui


Agarra-me esta noite

Sente o tempo que eu perdi (mmmmm)

Agarra-me esta noite

Que amanhã não estou aqui"


Pedro Abrunhosa

sexta-feira, junho 15, 2007

Tu....



Um beijo perdido,
Uma carícia roubada,
Um mundo desconhecido,
No meio do nada…
Estar contigo foi sonho,
Pelo menos no começo.
Mas chega o dia medonho,
Em que não te reconheço.
Tentei procurar-te
Reconhecer-te de novo
Ter-te ao pé de mim
Mas tudo em vão
Pois os sonhos são assim:
Uma carícia perdida,
Depois de um beijo roubado,
No meio da multidão.
Joana Patrício

















segunda-feira, junho 04, 2007


Retrato de uma Menina-Mulher





Era uma vez uma menina,

Frágil e pequenina,

Em busca do sonho perdido.

Trazia na voz o lamento,

No olhar a ternura,

Na pele proféticas marcas

De uma vida repleta de amargura.

Queria abraçar o mundo

Com um único abraço,

Desejava sentir calor humano

Na frieza e na força do embaraço...

Sonhava mais e mais,

Mas seus sonhos caíam por terra,

Criando lados desiguais.


A menina cresceu

É hoje uma mulher;

De memórias recalcadas,

Feridas mal cicatrizadas,

Não esquece tudo, de bom e de mau,

Que outrora viveu...

Traz no coração a saudade,

Na alma o desejo veemente

De conquistar a verdade

Na indiferença aparente.

Ela é a menina-mulher

Por quem lutaste e morreste;

Ela sabe, sente, acredita

Que tu não a esqueceste!

terça-feira, maio 22, 2007


Ao perder-te eu a ti tu e eu haviamos perdido,

eu, porque tu eras o que eu mais amava

tu porque eu era a que te amava mais.

Mas de nós dois tu perdeste mais que eu,

porque eu posso amar a outros

como amei a ti,

mas a ti não amarão como te amava eu!

“ Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,

que solidão errante até tua companhia!

Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.

Em taltal não amanhece ainda a primavera.

Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,

juntos desde a roupa às raízes,

juntos de outono, de água, de quadris,

até ser só tu, só eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,

a desembocadura da água de Boroa,

pensar que separados por trens e nações

tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos

com todos confundidos, com homens e mulheres,

com a terra que implanta e educa cravos.”


Pablo Neruda

Terror de te amar




Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.



Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, maio 18, 2007



A beleza

Sempre foi

Um motivo secundário

No corpo que nós amamos;


A beleza não existe,

E quando existe não dura.

A beleza

Não é mais do que o desejo

Fremente

Que nos sacode...

- O resto, é literatura.


António Botto

terça-feira, maio 08, 2007

Recordar...



Recordar o quê?

As loucuras que vivi,

o tempo que perdi!

Ou aquilo que ficou por viver?


Hoje pouco ou nada importa,

os pensamentos são muitos,

as desilusões mais ainda,

tudo brota, feito cascata ou vendaval.

Mas que me importa afinal,

se continuo a sonhar.


Sonhar com uma canção,

que nos embala o coração,

um poema que foi lido

e que ficou num canto esquecido.


Lamentar o quê, meu Deus,

no final tudo acaba,

tudo termina,

somos apenas pó e cinza que se esvai.


Partir para longe, levar-te no meu pensamento

junto ao meu coração.

Tu serás e sempre foste o Amor do meu passado,

a busca da felicidade,

o sonho que não termina,

a razão de uma vida!

Lágrimas Ocultas




Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...


E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!


E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...


E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!


Florbela Espanca

sexta-feira, março 09, 2007

"A carícia perdida"




Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos...
No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?

Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...

Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.

Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?


Indiferença



Ora Diz-me a verdade:

Tu já sentiste por mim

Uma sobra de saudade,

De amor, de ciúme, enfim,

Uma impressão que indicasse

Haver em teu coração

Fibra, corda que vibrasse,

A minha recordação?


Parece, mas o contrário;

Sim, o que devo supor

É deserto e solitário

O teu coração de Amor!

Não digo por outro; invejo

Talvez a sorte de alguém…

Mas o que eu sei, o que eu vejo,

É que me não queres bem!


sábado, fevereiro 17, 2007

O que é Amar




Dizem por aí que amar não compensa
- Mas é apenas a voz da descrença
No predomínio espiritual
Da humana existência –.

Porque o Amor não é material,
Não pode ser verdadeira aquela sentença.

Amar é amor em acto,
E só quem não tiver essa experiência
- Porque nunca amou ou foi amado –
Poderá duvidar de tão rica vivência.

Ó lua cheia! Ilumina estes corpos
Sem alma, que não suportam o solar jacto.

É gente que aprendeu a conviver
Nas trevas, sem a luz interior,
Resplandecente, e que provém do espírito
- Que é a fonte do amor –.

Dá – lhe, Senhor, o dom de poder ver
Como se é feliz, no prazer e na dor.

Amar é um sentimento complexo,
Que só entes sensíveis podem entender;
Não é um mero coito ou amplexo,
É um dar tudo, mesmo sem nada obter,

Não físicos bens, por invejáveis que sejam,
Mas sim o que de mais intimo há num ser.

É viver o amado dentro de si,
Numa comunhão de pensamentos e acção,
Como se num só ente se fundissem,
Fazendo dos dois um só coração.

- E isso tem de ser real e não ficção,
Em que um amaria, mas o outro já não.

Pode não compensar no campo material
- Que nunca foi nem é o fito do amor –,
Porém, compensa sempre no espiritual,
Que fonte também é da alegria,
Da tristeza, do prazer e da dor,
E não uma vivência apenas animal.

A Felicidade




Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada
Não e mais a existência resumida
Que uma breve esperança malograda

O eterno sonho dalma desterrada
Que a traz ansiosa e embevecida
E uma hora feliz sempre adiada
E que não chega nunca em toda vida

Essa felicidade que supomos
Arvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos

Existe sim, mas nunca a encontramos
Porque ela esta sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nos estamos.

Fernando Pessoa

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

"As duas flores"


São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas,
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de Sol.
Unidas bem como as penas,
Das duas asas pequenas,
De um passarinho no céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas,
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos
Que em parelha descem tanto,
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do Mar
Unidas...ai quem pudera
Numa eterna Primavera
Viver qual vive esta flor,
Juntar as rosas da vida,
Na roma verde e florida,
Na verde roma do amor

Castro Alves

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Dá-me Lume




O dia dos namorados vem a caminho, mas mais uma vez vou passar o dia a trabalhar.... Fica no entanto a letra de uma musica muito especial para alguem muito especial.
Dá-me Lume

Chegaste com três vinténs
E o ar de quem não tem
Muito mais a perder
O vinho não era bom
A banda não tinha tom
Mas tu fizeste a noite apetecer
Mandaste a minha solidão embora
Iluminaste o pavilhão da aurora
Com o teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

Eu fiquei louco por ti
Logo rejuvenesci
Não podia falhar
Dispondo a meu favor
Da eloquência do amor
Ali mesmo à mão de semear
Mostrei-te a origem do bem e o reverso
Provei-te que o que conta no universo
É esse passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar

Eu tinha o espírito aberto
Às vezes andei perto
Da essência do amor
Porém no meio dos colchões
No meio dos trambolhões
A situação era cada vez pior
Tu despertaste em mim um ser mais leve
E eu sei que essencialmente isso se deve
A esse passo inseguro
E ao paraíso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar

Se eu fosse compositor
Compunha em teu louvor
Um hino triunfal
Se eu fosse crítico de arte
Havia de declarar-te
Obra-prima à escala mundial
Mas eu não passo dum homem vulgar
Que tem a sorte de saborear
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

terça-feira, janeiro 23, 2007

"Destino na Lua "

Se há coisas que são inesquecíveis,
outras são inolvidáveis.
Ainda hoje me relembrei de uma canção da minha juventude,
que passo a citar.

"Esta noite eu chorei tanto,
sózinha sem ninguém.
Por Amor todo o mundo chora,
um Amor todo o mundo tem.
Eu porém vivo sózinha,
muito triste sem ninguém.

- Será que eu sou feia?
- Não é não senhor!
- Então eu sou linda?
- Você é um amor!
- Responda-me então, porque razão, eu vivo só sem ter ninguém?!
- Você tem um destino na lua, que a todos encanta e não é de ninguém!
- Ai, eu tenho um destino na lua, que a todos encanto e não sou de ninguém.
- Não é de ninguém!
- Ai, eu não sou de ninguém!

Miluska

quarta-feira, janeiro 17, 2007

" Um Beijo"


Foste o beijo melhor da minha vida,
Ou talvez o pior...Glória e tormento,
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,

E do teu gosto amargo me alimento,

E rolo-te na boca mal ferida.

Beijo extremo, meu prémio e meu castigo,
Baptismo e extrema-unção, naquele instante
Por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto,
Beijo divino! e anseio, delirante,
Na perpétua saudade de um minuto...

Olavo Bilac

terça-feira, janeiro 16, 2007

Fazer de Conta


Faço de contas que sou mais feliz
Faço de contas que sei bem quem sou
Faço de contas que já me encontrou
Ess'alma que me amou e eu não a quis.

Faço de contas que sou alma actriz
Faço de contas que sei onde estou

Faço de contas que já me encantou
Ess'alma que me fala e nada diz.

Faço de contas que tudo sei ser
Faço de contas que não há "porém"
Faço de contas que tudo vou ter.

Faço de contas que são mais de cem
As contas que não conto por saber
Que ao certo contas certas ninguém tem.

quarta-feira, janeiro 10, 2007


Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira e verídica.


Preciso habituar-me
ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor
de todos os teus gestos

invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.


Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Raul de Carvalho

O Anjo de Pedra



Tinha os olhos abertos mas não via.

O corpo todo era saudade

De alguém que o modelara e não sabia

Que o tocara de Maio e claridade.


Parava o seu gesto onde para tudo:

No limiar das coisas por saber;

- e ficara surdo e cego e mudo

Para que tudo fosse grava no seu ser.


Eugénio de Andrade


[Quanto, quanto me queres – Perguntaste






Quanto, quanto me queres – Perguntaste

Numa voz de lamento diluída;

E quando nos meus olhos demoraste

A luz dos teus senti a luz da vida.


Nas tuas mãos as minhas apertaste;

Lá fora da luz do Sol já combalida

Era um sorriso aberto num contraste

Com a sombra da posse proibida…


Beijámo-nos, então, a latejar

No infinito e pálido vaivém

Dos corpos que se entregam sem pensar…


Não perguntes, não sei – não sei dizer:

Um grande amor só se avalia bem

Depois de se perder.


António Botto

  Bolinhos e bolinhós Para mim e para vós Para dar aos finados Que estão mortos, enterrados À porta da bela  cruz Truz! Truz! A senhora que ...