terça-feira, maio 22, 2007


Ao perder-te eu a ti tu e eu haviamos perdido,

eu, porque tu eras o que eu mais amava

tu porque eu era a que te amava mais.

Mas de nós dois tu perdeste mais que eu,

porque eu posso amar a outros

como amei a ti,

mas a ti não amarão como te amava eu!

“ Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,

que solidão errante até tua companhia!

Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.

Em taltal não amanhece ainda a primavera.

Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,

juntos desde a roupa às raízes,

juntos de outono, de água, de quadris,

até ser só tu, só eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,

a desembocadura da água de Boroa,

pensar que separados por trens e nações

tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos

com todos confundidos, com homens e mulheres,

com a terra que implanta e educa cravos.”


Pablo Neruda

Terror de te amar




Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.



Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, maio 18, 2007



A beleza

Sempre foi

Um motivo secundário

No corpo que nós amamos;


A beleza não existe,

E quando existe não dura.

A beleza

Não é mais do que o desejo

Fremente

Que nos sacode...

- O resto, é literatura.


António Botto

terça-feira, maio 08, 2007

Recordar...



Recordar o quê?

As loucuras que vivi,

o tempo que perdi!

Ou aquilo que ficou por viver?


Hoje pouco ou nada importa,

os pensamentos são muitos,

as desilusões mais ainda,

tudo brota, feito cascata ou vendaval.

Mas que me importa afinal,

se continuo a sonhar.


Sonhar com uma canção,

que nos embala o coração,

um poema que foi lido

e que ficou num canto esquecido.


Lamentar o quê, meu Deus,

no final tudo acaba,

tudo termina,

somos apenas pó e cinza que se esvai.


Partir para longe, levar-te no meu pensamento

junto ao meu coração.

Tu serás e sempre foste o Amor do meu passado,

a busca da felicidade,

o sonho que não termina,

a razão de uma vida!

Lágrimas Ocultas




Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...


E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!


E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...


E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!


Florbela Espanca

  Bolinhos e bolinhós Para mim e para vós Para dar aos finados Que estão mortos, enterrados À porta da bela  cruz Truz! Truz! A senhora que ...